HISTÓRIA E TEORIA DA TECNOLOGIA NA ARQUITETURA
T E R R I T Ó R I O S . O R G ..

Este site apresenta textos introdutórios acerca da história e da teoria da arquitetura e do urbanismo, tendo como referência movimentos, grupos e períodos cuja ênfase prioritária tenha sido dada aos avanços arquiteturais possibilitados pelo desenvolvimento tecnológico e seus rebatimentos nos estilos de vida e produção de espaços.

TECNOLOGIA

do Gr. technologia < téchne, arte + lógos, tratado

. teoria geral e estudos especializados sobre os procedimentos, instrumentos e objectos próprios de qualquer técnica, arte ou ofício; . linguagem específica de uma arte ou ciência


 

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Internacional Situacionista - clique aqui para ver as imagens

"Não há algo como uma obra situacionista, mas um uso situacionista da obra".

1 - Formação:

Em 1960 é lançado o Manifesto da Internacional SItuacionista, organizado por um grupo de jovens franceses que tinham uma chamada "ideologia marginal". No fundo, buscavam uma tentativa de teorizar as práticas espontâneas desenvolvidas no seio da subcultura boemia da Rive Gauche Parisiense. Guy Debord foi o fundador, e no seu círculo incluíam-se aventureiros, poetas e marginalizados de vários âmbitos, incluindo os conhecidos Letristas. A Internacional Situacionista surgiu de uma fusão de grupos, entre eles o COBRA, os Psicogeográficos da Alemanha, o MIBI (ou Movimento Internacional para uma Bauhaus Imaginista), este último encabeçado por Asger Jorn, além de artistas como Pinot Gallizio, um químico convertido em industrial e pintor que realizou desenhos feitos com as "máquinas de pintar". Eram rolos de tela pintados com pistolas e resina, feitas com o intuito de cobrir grandes extensões da cidade. No geral, as atividades da Internacional Situacionista reuniam obras de artistas, urbanistas, cineastas e poetas.

Guy Debord, líder ideológico do movimento, assumia uma postura "contra-cultura" numa época que ele mesmo denominava como a "sociedade do espetáculo". Ele se recusava a entrar no enquadramento sugerido pelos conceitos de "usuários-tipo", clássica do Estilo Internacional e do Movimento Moderno. Quanto a esta situação social até então vigente, eles apontavam suas críticas para o efeito retardante de uma estrutura econômica opressora que exclui os usos de "efeitos afetivos". Questionavam o papel da produção cultural na cultura consumista do pós-guerra, posicionando-se assim como um grupo de dupla identidade estética e política. Fortes críticas acerca da "pasteurização" da vida cotidiana, na qual o usuários estavam "embutidos" nas " fórmulas de uso".

"Aqueles de nossos colegas que se mostram partidários de uma arquitetura nova, uma arquitetura livre, devem entender que a arquitetura deve abrir caminho tomando como objetivo situações emotivas, mais do que formas emotivas"

"O urbanismo não existe, não é mais do que uma ideologia. A arquitetura sim existe, igual à Coca-Cola. Um produto revestido de ideologia, mas real, que satisfaz de uma maneira falsa uma necessidade falsa."

Uma das críticas dominantes era direcionada à pobreza teórica do funcionalismo dominante da arquitetura na época.

2 - Principais Ambições:

Acreditava-se na descentralização da arte, objetivo que poderia ser alcançado com a "inflação" da produção de arte a partir custos muito baixos e em grande quantidade. Tinham uma atração pelo melodrama, pelo humor sarcástico e uma ira inflexível contra a "ordem pré-estabelecida". Faziam uso humorístico de imagens publicitárias e outras formas de poesia urbana que utilizam como meio e suporte formas de expressão popular. Neste sentido, uma exploração de novas formas de subjetividade revolucionária. Segundo o manifesto deveriam estar sempre associados: tempo vivido x espaço, ação x representação, vida x arte.

Incluída em suas linhas de ação, a cultura concebida, para os Situacionistas, como um complexo formado pela estética, os sentimentos e os costumes: a reação de uma época à vida cotidiana, que pressupunha uma "revolução" como uma transformação radical da estrutura e do caráter do desejo. Buscaam uma redefinição dos novos desejos com relação às novas possibilidades do mundo atual: "temos que construir ambientes novos que sejam, simultaneamente, produto e instrumento de novas modalidades de comportamento". Deveriam ser feitas relações próximas entre espaço e desejo, tendo a paisagem contemporânea como o laboratório de busca. Os desejos revolucionários denunciaam a necessidade de renovação, uma busca pelo desconhecido, pela surpresa, espontaneidade, não preocupando-se com o objeto final, mas com ato criador: generalização de criatividade.


A questão da disposição dos espaços nas cidades foi uma das grandes inquietudes do grupo. Geravam conceitos de um tipo de urbanismo denominado "totalitário", uma reconceitualização criativa da cidade, na qual seria possível a construção de situações sobre as condições de organização e ação. "Não tratar a cidade tratando dos iguais, lidar com a sua multiplicidade, como um novo teatro de operações culturais". A Metrópole não era apenas um "momento do habitar", mas a sua condição e possibilidade. Assim, urbanismo não é encarado como planejamento urbano, mas o que importa é a sua condição de ser, e suas possibiidades.

Colocam em xeque o experimentar dos edifícios e lugares urbanos. A revolução do cotidiano da cidade só seria possível através da consideração do lugar urbano para além de sua configuração formal, mas nas situações de uso que comporta.

O papel da obra de arte era de revolucionar o cotidiano, se misturar ao cotidiano, rompendo com o circuito da elite para a arte, ou dépassement de l´art. Era estratégia sabotar as divisões sociais e institucionais que separavam a arte do cotidiano. Diante de um nomeado "funcionalismo míope", a Internacional Situacionista admitia a necessidade de um entorno funcional fascinante, alcançado através de situações, novos tipos de construções destinadas a promover novos modos de habitar: uma construção concreta de ambientes momentaneamente vividos e sua transformação em uma qualidade superior de percepções.
Viam a ampliação do campo de atividade artística, uma busca constante pela invenção.

Dentro do ideal de um "urbanismo unitário" , a arte deveria estar amagamada à cidade, constituindo uma atividade sempre variável, sempre viva, atual, criativa. O espaço se definiria conforme os "trajetos psicogeográficos", sensível aos sucessivos efeitos do meio sobre a afetividade e o comportamento. Deveria ser superada a dicotomia entre momentos artísticos e momentos banais, o rompimento desta zona de fronteira entre arte e vida cotidiana. Diziam eles: "construa você mesmo uma situaçãozinha sem futuro", convidando para uma transformação do mundo cotidiano através de uma fusão de vida ordinária e arte.

No conceito de "Psicogeografia", seriam realizados estudo das leis precisas e dos efeitos exatos do meio geográfico, construído ou não construído, em função de sua influência direta sobre o comportamento afetivo dos indivíduos. Para isso seriam necessárias "novas cartografias", novos artefatos gráficos e textuais que reutilizariam mapas existentes, imagens topográficas, fotografia aéreas e gráficos sociológicos como recurso para se traçar vetores com relação ao espaço construído; uma chamada "geografia social". A concepção situacionista de cidade era baseada num lugar de movimento nômade, lugar de desorientação. O espaço metropolitano poderiam ser encarado e mapeado como um sistema de zonas unidas por "setas e vetores de desejo". O detournement, ou desvio, era necessáio, e consistia na apropriação e reorganização criativa de elementos preexistentes, muito utiizado nestas novas cartografias, um processo de descontextualização e recontextualização das referências.

3 - O conceito de Labirinto e a teoria da Deriva

O Labirinto era utiizado como referência idológica pela concepção dinâmica do seu espaço, oposto à perspectiva estática das linhas ortogonais. Além disso, também associado a uma estrutura de organização mental e um possível método de criação baseado no vagar, vagabundear, nos trajetos e caminhos com saídas luminosas e reclusões trágicas, um tipo de mobilidade generalizada.

A Internacional Situacionista propõe o abandono do modo euclidiano de figuração do espaço, dizem não aos pontos fixos de orientação para as visadas que segundo eles reduzia a distância psíquica entre o objeto e o sujeito. Não admitiam mais o "fazer soberano".

 

 

Devemos explorar o espaço urbano e percebê-lo como ele é: uma aglomeração caótica, um labirinto de ambientes, interrogá-lo sobre suas distâncias, seus pólos de atração. A prática da deriva (1958) propunha ua experiência a seu próprio modo, lúdica e experimental. "Ela leva a estabelecer o levantamento das articulações psicogeográficas de uma cidade moderna, suas diferentes unidades de ambiente e habitação". A deriva urbana é um comportamento tipicamente labirintiano, segundo Debord, uma experiência de abandono da atividade produto-consumista para se deixar levar pela desorientação da cidade, seu fruir; um trajeto dirigido pela indeterminação e pelo azar, um jogo de itinerários dispares. O desenho da cidade deveria surgir a partir do seu conhecimento. São teorias vindas a partir da apropriação do espaço, baseado em referências construídas e percebidas que chamam a atenção individual: "se deixar despertar pela cidade, vagar por ela, perdendo-se tempo deliberadamente durante dias inteiros".

Uma experiência real do "labirinto" foi feita em 3 dias de deriva sistemática, liderada por 3 times situacionistas no coração da aglomeração urbana de Amsterdã. O labirinto deveria consistir em um caminho que poderia, em teoria, estar em qualquer lugar entre 200m e 3km. Sua disposição não deveria apontar a apenas algum tipo de decoração interior, nem numa reprodução redutiva da ambientação urbana; ao invés disso, deveria tender a constituir uma atmosfera nova e híbrida combinando elementos interiores e exteriores; passagens através de áreas de diferentes luminosidades, efeitos sonoros e outros tipos de estímulos conceituais, sempre promovendo a possibilidade de se ficar perdido.

"O lugar labiríntico reside em ser desenhado, só existe enquanto trajeto, travessia. Não se consegue saber se estamos entrando ou saindo, nem reconhecer seus limites e suas fronteiras".

Uma exibição foi montada no Stedelijk Museum em Amsterdã. Foram convertidas as salas 36 e 37 do museu em um enorme labirinto interior onde haveria uma representação artificial da chuva, dos ventos, da névoa, um conjunto de ambientes acústicos previamente regravados e um túnel criado pela pintura industrial de Pinot Gallizio. Um marco de micro-deriva.

Valorizavam a celebração de uma condição humana na qual os espaços públicos deixam de ser cenários privilegiados do poder para se converter em uma flutuação aleatória de itinerários múltiplos e difusos, determinados pela lógica da mobilidade. Idéia esta que se fundamenta numa experimentação radical dos lugares da cidade ou mesmo no desenho de uma arquitetura nova.

4 - Projeto da Nova Babilônia:

Eram megaestruturas high-tech desenvolvidas por Constant. Utilizava gigantescas estruturas espaciais cujos elementos diagonais e tencionáveis se tornavam possíveis pelas inovações estruturais, como aquelas apresentadas no Pavilhão Francês na Exposição de Bruxelas em 1958, obra do engenheiro francês René Sarger. Nova Babilônia foi concebida como uma construção contínua sobre pilares, com um sistema extenso de espaços para se dormir, divertir, assim como também lugares para a produção e distribuição de objetos e utensíios, enquanto que o solo ficaria livre para o tráfego e para reuniões públicas.

Para sua execução, deveriam ser utilizados materiais ultra leves e facilmente montáveis, tendo o objetivo de produzir uma arquitetura leve e espaçada. A cidade teria 100% de espaço construído, mas 200% de espaço livre (contra 80% e 20%, respectivamente das cidades em geral). Os terraços ao ar livre seriam acessados por elevadores e escadas, e cobririam toda a cidade. Se encarregariam dos esportes, aeroportos, heliportos, jardins, etc. O controle artificial dos níveis diferenciados, divididos em espaços contíguos e intercomunicáveis, possibilitaria uma variação infinita de ambientes, fomentando a deriva.

"Embora o projeto que acabamos de esboçar corre perigo de ser rechaçado considerando-o um sonho fantasiado, insistimos em que é realizável tecnicamente e desejável do ponto de vista humano., e indispensável do ponto de vista social. A insatisfação cada vez maior que domina a humanidade chegará a um extremo em que todos nós veremos necessidade de executar esses tipos de projetos, para os quais já dispomos de meios de construção".

Nova Babilônia seria caracterizada por um espaço em constante transformação, um produto variável de uma atividade lúdica generalizada, um estado de espontaneidade. Suas megaestruturas seriam conectadas acima da cidade, entrando e saíndo da cidade antiga a qualquer momento. Poderia ser pensada em qualquer cidade, utiizando seus espaços vazios aéreos. Ela poderia ser constanteente remodelada pelo andar de seus habitantes, pelas suas descobertas. O estranhamento seria inevitáel: "deixar o espaço lhe impressionar, exercitar a obra, tomar posse do lugar", formação de uma nova ambiência: usuários impressionados pelo olhar. Propunham "soltar a arquitetura na mão de quem usa", deixando frestas e permitindo sua identificação, um cotidiano jamais domesticado. Ofereciam uma imagem benevolente de um futuro em que a tecnologia e o processo urbanizador constituiriam uma fonte de prosperidade e liberdade. Uma cidade nômade, feita de habitações temporárias, permanentemente remodelada pelo andar de seus habitantes. Proposta de grandes redes que se sobrepõem de maneira ilimitada sobre as cidades existentes também faziam parte das concepções da Nova Babilônia.

Para a construção de um " urbanismo unitário" seria necessária a utilização de todo o conjunto das artes e tecnologias enquanto recursos que contribuíssem para produzir uma composição holística do meio ambiente. "Qualquer construção futura deverá ser precedida de uma profunda investigação das relações entre espaço e sentimento, como forma e estado de ânimo", uma arquitetura que fosse capaz de transformar as concepções dominantes de tempo e espaço, e que fosse ao mesmo tempo um instrumento de conhecimento, um meio de ação, uma arquitetura parcialmente modificável e maleável e carregada com os desejos de seus habitantes. A principal atividade dos habitantes desse território seria uma contínua deriva, um contínuo deambular que provocaria um estranhamento meio-ambiental implacável, profundo e delirante.

Era importante determinar com clareza a diferença entre um espaço estático e outro dinâmico:
. O espaço estático: o espaço óbvio para a sociedade utilitarista, a construção de um espaço baseado diretamente no princípio de orientação. Se não fosse assim, o espaço não poderia funcionar como um local de trabalho. Quando o uso do tempo se julga do ponto de vista da utilidade, era importante não perder tempo e minimizar os deslocamentos entre o local de morar e o local de trabalho. Por isso, todas as concepções urbanísticas partem desse princípio de orientação.

. O espaço dinâmico: tem um pensamento com relação à uma sociedade lúdica. Uma construção estática do espaço é incompatível com os as contínuas mudanças de comportamento de uma sociedade. As atividades lúdicas conduzem inevitavelmente à uma dinamização do espaço.

O principal habitante do espaço dinâmico seria o homo ludens: o homem que atua sobre o seu entorno - interrompe, muda, intensifica. Mais do que uma ferramenta de trabalho, o espaço era um objeto de jogo: por isso é necessário que ele fosse móvel e variável. Como agora não são mais necessários os rápidos deslocamentos, poder-se-ia intensificar e complicar o uso do espaço, um terreno de jogo, de aventura e de exploração. Assim como o labirinto, uma construção estática determinaria os comportamentos. Nela não se pode escolher os caminhos, pois existe apenas um caminho correto que conduz à saída. Num labirinto dinâmico a liberação do comportamento exige um espaço social, labiríntico e ao mesmo tempo continuamente modificável. Não existe apenas uma saída, mas um número infinito de saídas em movimento. Mudança real do conceito de estar perdido para o conceito de procura por caminhos desconhecidos. O labirinto muda de estrutura segundo os extravios, um processo ininterrupto de criação e destruição, que é denominado pelo labirinto dinâmico. Todos esses conceitos estão relacionados com o desenvolvimento de uma sociedade lúdica, e a evolução de um urbanismo dinâmico.