HISTÓRIA E TEORIA DA TECNOLOGIA NA ARQUITETURA
T E R R I T Ó R I O S . O R G ..

Este site apresenta textos introdutórios acerca da história e da teoria da arquitetura e do urbanismo, tendo como referência movimentos, grupos e períodos cuja ênfase prioritária tenha sido dada aos avanços arquiteturais possibilitados pelo desenvolvimento tecnológico e seus rebatimentos nos estilos de vida e produção de espaços.

TECNOLOGIA

do Gr. technologia < téchne, arte + lógos, tratado

. teoria geral e estudos especializados sobre os procedimentos, instrumentos e objectos próprios de qualquer técnica, arte ou ofício; . linguagem específica de uma arte ou ciência


 

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ARQUITETURA PRIMITIVA - conceitos

- Definição dos conceitos do que é a arquitetura sob ótica da produção do espaço (habitação, microclima)
- Técnica construtiva e arte (ofício)
- Definição Vitruviana
- Etimologia da palavra arquitetura
- Definição do conceito tectônico
- Definição de tecnologia
- A casa como extensão do corpo


1 - Análise tectônica da arquitetura primitiva

A arquitetura pode ser compreendida primariamente como uma imposição da necessidade da conservação da vida humana sob os efeitos do clima, da nocividade do tempo meteorológico, abrigando-o sob um ambiente alterado. O instinto primitivo conduz o homem a um recinto fechado, onde ele acostuma-se ir não só para repousar, mas também para escapar às intempéries. Esse local pode ser definido como habitação. O ambiente interno de uma habitação qualquer é, sem dúvida, um microclima especialmente preparado pelo homem de modo a fornecer-lhe as condições de higiene, repouso e segurança necessárias.

A casa é um microclima artificial. Oferece uma vantagem considerável, podendo ser parcialmente modificado, regulado e amenizado quando ocorrem causas de viciação e fenômenos meteorológicos desfavoráveis. Ela pode ser, então, considerada um acidente geográfico, uma descontinuidade do espaço natural intocado. Podemos definir a arquitetura das construções primitivas como abrigo humano desenvolvido sob a intuição e a resolução de problemáticas espaciais influenciado pelo sítio onde se insere. Podemos afirmar que, via de regra, não poderiam ser adaptadas ou transportadas de uma região para outra de clima inverso ou com condições naturais diferentes daquelas que geraram as resultantes formais do habitáculo, assim como foi gerado a vegetação, os animais e os próprios homens.

Uma vez construído o abrigo elementar pelo homem primitivo, de acordo com as possibilidades da época, este começou a perceber que o ato inicial de abrigar-se não era por si só suficiente. Ele começa, então, a introduzir no seu abrigo ainda rudimentar; melhorias ou aperfeiçoamentos que permitissem a ele um melhor rendimento frente seus objetivos. A técnica construtiva foi sempre produto da manipulação e aplicação dos materiais de construção, geralmente adquiridos da região geográfica onde ela se insere.

Podemos analisar e definir esse processo como a ordenação das peças ou dos lugares e objetos, programados segundo uma disposição, orientação e interdependência coerentes com a sua natureza e necessidade. Além dessas considerações práticas, o que faz da arquitetura uma das mais intricada das artes é a conciliação desses fatores com os conceitos estéticos. O arquiteto primitivo é, antes de tudo, um artista. Ele é um criador de formas condicionadas.

O arquiteto italiano Vitruvio desenvolveu um estudo denominado De Architectura Libri Decem que continha um conteúdo teórico rico em informações relativas aos métodos e estratégias construtivas. Traçava toda uma linha doutrinal que, segundo o seu pensamento, auto regeria a ação do arquiteto e o evolver da arquitetura. "É preciso que ele tenha facilidade de redação, hábito de desenho e conhecimento de geometria; deve Ter algumas tinturas de ótica, conhecer a fundo a aritmética, ser versado em história, dar-se com atenção ao estudo da música, não ser alheio à medicina e à jurisprudência, e estar a par da ciência astronômica que nos inicia nos movimentos celestes (...) A arquitetura tem por objetivo a ordenação, disposição, a eurritmia, simetria, conveniência e a distribuição".

Seguindo a etimologia da palavra arquitetura, que se origina do vocábulo grego architekton, leva-se a concluir que o ato criativo está condicionado a produção das necessidades primordiais de permanência. Platão via na obra de arquitetura não a representação do objeto conceituado, mas o real objeto. Uma idéia abstrata sendo atribuída de forma, gerando um objeto concreto, uma realização imaginária. Platão coloca como exemplo um pintor e um arquiteto, e os relaciona de forma a definir a obra de arte como nada mais é que uma imagem, "um fantasma, desprovido de existência verdadeira".

No livro Studies in Tectonic Culture , o autor define um importante conceito que será utilizado como guia para as análises das manifestações arquitetônicas, independente do momento histórico em que elas se situam. Kenneth Frampton analisa o termo tectônico, como algo inerente ao uso e à configuração de uma edificação no que diz respeito aos materiais que são utilizados, a maneira e disposição deles no conjunto da obra e ao modo como a herança histórica assimila os diferentes materiais disponíveis. Para ele, o potencial da arquitetura é estabelecer significados autênticos naquilo que nós vemos, sentimos e experimentamos; o tectonic é, definitivamente, fundamental para as conclusões sobre como os materiais influenciam naquilo que sentimos. Esse conceito pode também se desenvolver segundo agrupamentos; não apenas de partes de edifícios, mas também de objetos. O livro foca a arquitetura como um ofício do ato da construção: arte de ajuntamentos. Arte que deve ser entendida como envolvendo técnica, habilidade. Segundo os trabalhos de Auguste Perret, Loui Kahn, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright e Carlos Scarpa, ele aborda a questão de como a forma construtiva e as características dos materiais foram integrais para o desenvolvimento das expressões arquitetônicas. O arquiteto ordena, manipula, utiliza aquilo que dá origem aos espaços em que vivemos. Ainda no mesmo raciocínio, ele explora os múltiplos conceitos de arte que, nesta perspectiva, pode ser entendida como a construção ou fabricação de um produto artesanal ou artístico. Portanto, dependendo das aplicações das regras artesanais ou do grau de utilidade do objeto, o caráter tectônico envolve um julgamento acima da produção de arte. Dentro deste argumento, o tectonic estabelece um retorno à materialidade do objeto, sendo compreendida como uma sintaxe da construção, como uma aplicação de uma série de formas de arte; arte que deve ser compreendida como ofício, profissão (conceito que será discutido mais adiante).

Tectonic é a arte de construir edifícios. A idéia de tecnologia também significa a produção segundo a aplicação de conceitos determinados. A origem da palavra está calcada no termo grega techne ou tikto, que significa produção. Esse termo compreende simultaneamente o conjunto dos processos especiais relativos a uma determinada arte ou indústria, ou a aplicação dos conceitos científicos à produção em geral. Concluindo, seria o conjunto de artes e técnicas sociais aplicadas para fundamentar o trabalho social, a planificação e a engenharia, como forma de controle.

"Herbert Marcuse entendia a tecnologia como um processo social no qual as técnicas próprias (o aparato técnico da industria, dos transportes, das comunicações) não são senão um fator parcial. A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade de instrumentos, aparelhos e idéias que caracterizam a era da maquina, é então, ao mesmo tempo, um modo de organização, perpetuação ou mudança das relações sociais, uma manifestação dos padrões predominantes de pensamento e comportamento, um instrumento de controle" .

Os utensílios, vasos, espaços de moradia e encontro do homem primitivo com certeza se formaram e desenvolveram segundo o caráter de aplicação, porém sem se liberar por completo das noções subjetivas, sentimentais, que amplificam a definição de arte.

Para o arquiteto Alberto Perez-Gomes, a Tecnologia é mais do que máquinas ou processos neutros: é o nosso mundo, a realidade histórica que nós fabricamos . A tecnologia não pode ser liberada do ponto de vista das artes tradicionais, metafísica e humanismo. O empuxo por trás de suas realizações é realmente a sede por transcendência, em alguns contextos entendido como a luta sem fim pela liberação pessoal.

 

 

 

Sob a perspectiva da sociologia, a tecnologia também pode ser definida a partir de: a aplicação da lógica, razão e conhecimento aos problemas de matérias primas do meio-ambiente. Técnicas sociais empregam o mesmo pensamento dirigindo-se aos problemas de organização humana. Tecnologia envolve a criação de instrumentos materiais (máquinas) utilizadas na interação do homem com a natureza assim como instrumentos sociais (burocracia) utilizadas na organização humana. Ou ainda, objeto ou seqüência de operações criadas pelo homem como assistência para se alcançar um objetivo. O corpo do conhecimento humano que pode ser passado de um lugar para outro ou de uma geração para outra. O corpo de conhecimento e o estudo sistemático de métodos, técnicas e ferramentas aplicadas na adaptação do meio-ambiente físico às necessidades e desejos do homem. A aplicação do conhecimento cientifico para construir e melhorar a infra-estrutura da agricultura, indústria e vida diária. O conhecimento sistemático e os métodos e procedimentos os quais podem ser utilizados numa área especifica de maneira a resolver problemas práticos. A aplicação da ciência às necessidades da humanidade

Quando introduzimos nossas discussões no conceito de espaço e o analisamos segundo a mesma lógica que viemos seguindo até agora, podemos analisá-lo como algo que foi arrumado, limpo, dotado de barreiras, essas que devem ser entendidas não como elementos que nos barram, mas aquilo para qual alguma coisa inicia a sua presença. Em sua essência, o espaço é o lugar onde alguma coisa foi ajeitada segundo a interferência do homem, um espaço deixado entre limites determinados. O filósofo Heidegger concebe a arquitetura sustentando a idéia de que ela tem a capacidade não apenas de expressar os diferentes materiais a partir dos quais ela é produzida, mas também revelar as diferentes instâncias e modos para o qual o mundo se forma.

Nesta linha, devemos determinar que a arte seria o conjunto de regras para se dizer ou se fazer alguma coisa, através da execução prática de uma idéia. Seria ela o saber ou perícia em empregar os meios para se conseguir um resultado, um complexo de regras e processos para a produção de um efeito estético determinado: habilidade, profissão, ofício.

Mas a casa do homem não se trata apenas de uma necessidade imposta pela pressão de uma natureza hostil ou de uma adaptação não biológica, mas da ânsia ou da urgência de limitar um espaço próprio em seu habitare, quer como caráter permanente, quer como posse acidental para fins concretos. Nela estão presentes aspectos de proteção e de apropriação de um espaço. Não se trata, ainda, de uma de uma proteção estritamente biológica, mas uma afirmação frente à natureza - a relação de mundo do homem com o meio.

A história da arquitetura contemporânea é múltipla: a historia das estruturas que formam o ambiente urbano independentemente da própria arquitetura, a tentativa de controlar e dirigir essas estruturas, a historia dos intelectuais que procuraram inventar e desenvolver métodos e políticas para essas tentativas e a história das linguagens.

A evolução da arquitetura pode ser vista como o desdobramento progressivo do sentimento humano pelo espaço.

A Casa como uma segunda pele.

A casa desempenha o papel de intercâmbio do homem com a natureza. Ela estabelece condições de sensibilidade, de relação com o outro assim como a pele. O que primeiro chama a atenção na morada humana primitiva é a sua extraordinária adaptação ao meio em que se constrói. Ela estará diretamente condicionada à sua localização e orientação frente às condições climáticas e aos materiais disponíveis. Dentre eles podemos citar como exemplo a madeira no meio florestal, a pedra nas montanhas, o adobe nas planícies aluviais além das peles de animais e fibras vegetais.

Quando analisamos as construções com fins religiosos, encontramos um grande número de exemplares em praticamente todas as civilizações e culturas. O conceito de sagrado extrapola os limites humanos. Os templos são lugares de interface do mundo terreno com um "espaço superior". A idéia de um espaço sagrado é anterior à idéia de um templo religioso propriamente dito, onde atua a presença de uma divindade verdadeiramente transcendente. É um lugar de forte relação introspectiva, ritualística, de oração e culto.

Devemos seguir a análise das tipologias de construções humanas primitivas sem esquecermos das edificações funerárias. As primeiras construções de maior importância que se conhecem são os monumentos funerários, datados do período Mesolítico. As tumbas e os enterramentos com sinais de ritual remontam ao período Paleolítico Médio. Assim como os monumentos são elementos sem função utilitária prática. A sua forma está desligada de qualquer função concreta. A inumação do cadáver na terra é o ritual funerário mais utilizado. Desse tipo de estruturação se desenvolvem a maioria dos exemplares dos túmulos: algo que está destinado à morte implicando na destruição do seu próprio corpo. Utilizando-se mais uma vez das noções etimológicas, o termo túmulo remete ao conceito de lembrança. Segundo o autor Lewis Munford, "o respeito do homem antigo pelos mortos (...) teve um papel maior ainda que as necessidades de ordem mais prática, ao fazer que procurasse um local fixo, um ponto fixo. Os mortos foram os primeiros a ter uma morada permanente: uma caverna, uma cova assinalada por um monte de pedras, um túmulo coletivo. Constituíam marcos aos quais provavelmente retornavam os vivos a intervalos, a fim de comungar com os espíritos ancestrais".

Há ainda, outra parte do ambiente que o homem paleolítico não somente utilizava, mas onde periodicamente regressava: a caverna. Por todo o mundo, há provas de ocupação e visitação aborígene às cavernas. Nas camadas das grutas calcárias de Dordogne, na França, por exemplo, é possível retraçar sucessivas ocupações pelo homem pré-histórico. Mais importante que sua utilização para finalidades domésticas foi o papel que a caverna desempenhou na arte e nos rituais. Embora algumas delas não tenham sido habitadas, como as de Lascaux e Altamira, parecem ter sido centros cerimoniais de alguma espécie. Os antigos santuários do Paleolítico são locais onde primeiramente se desenvolveram indícios da vida cívica: locais de regresso devido à fome ou fonte de água ou alimento, ou algum tipo de escambo. Alguns outros tipo de lugares também personificavam propriedades e poderes sagrados que atraiam os homens: grandes pedras, bosques sagrados, árvores monumentais, fontes santificadas. Eram marcos fixos que ajuntavam aqueles que de alguma maneira compartilhavam as mesmas práticas. Nota-se, então, que a fixação do homem a um determinado local se liga mais a motivos sagrados e não simplesmente à sobrevivência.

A respeito da técnica no período Neolítico, a grande inovação ocorreu na área dos recipientes: utensílios de pedra e de cerâmica, os vasos, jarros, tinas, potes, depósitos, etc. Sem recipientes vedados (como os jarros de pedra ou argila), o aldeão neolítico não tinha como guardar seus alimentos, protegê-lo de roedores e insetos. E sem casa permanente de morada, os filhos, os doentes e os velhos não poderiam ser mantidos juntos e em segurança. Foi nos recipientes permanentes que a invenção neolítica ultrapassou em brilho as culturas anteriores.