- Definição
dos conceitos do que é a arquitetura sob ótica da produção
do espaço (habitação, microclima)
- Técnica construtiva e arte (ofício)
- Definição Vitruviana
- Etimologia da palavra arquitetura
- Definição do conceito tectônico
- Definição de tecnologia
- A casa como extensão do corpo
1 - Análise tectônica da arquitetura primitiva
A arquitetura
pode ser compreendida primariamente como uma imposição da
necessidade da conservação da vida humana sob os efeitos
do clima, da nocividade do tempo meteorológico, abrigando-o sob
um ambiente alterado. O instinto primitivo conduz o homem a um recinto
fechado, onde ele acostuma-se ir não só para repousar, mas
também para escapar às intempéries. Esse local pode
ser definido como habitação. O ambiente interno de uma habitação
qualquer é, sem dúvida, um microclima especialmente preparado
pelo homem de modo a fornecer-lhe as condições de higiene,
repouso e segurança necessárias.
A casa é
um microclima artificial. Oferece uma vantagem considerável, podendo
ser parcialmente modificado, regulado e amenizado quando ocorrem causas
de viciação e fenômenos meteorológicos desfavoráveis.
Ela pode ser, então, considerada um acidente geográfico,
uma descontinuidade do espaço natural intocado. Podemos definir
a arquitetura das construções primitivas como abrigo humano
desenvolvido sob a intuição e a resolução
de problemáticas espaciais influenciado pelo sítio onde
se insere. Podemos afirmar que, via de regra, não poderiam ser
adaptadas ou transportadas de uma região para outra de clima inverso
ou com condições naturais diferentes daquelas que geraram
as resultantes formais do habitáculo, assim como foi gerado a vegetação,
os animais e os próprios homens.
Uma vez construído
o abrigo elementar pelo homem primitivo, de acordo com as possibilidades
da época, este começou a perceber que o ato inicial de abrigar-se
não era por si só suficiente. Ele começa, então,
a introduzir no seu abrigo ainda rudimentar; melhorias ou aperfeiçoamentos
que permitissem a ele um melhor rendimento frente seus objetivos. A técnica
construtiva foi sempre produto da manipulação e aplicação
dos materiais de construção, geralmente adquiridos da região
geográfica onde ela se insere.
Podemos analisar
e definir esse processo como a ordenação das peças
ou dos lugares e objetos, programados segundo uma disposição,
orientação e interdependência coerentes com a sua
natureza e necessidade. Além dessas considerações
práticas, o que faz da arquitetura uma das mais intricada das artes
é a conciliação desses fatores com os conceitos estéticos.
O arquiteto primitivo é, antes de tudo, um artista. Ele é
um criador de formas condicionadas.
O arquiteto
italiano Vitruvio desenvolveu um estudo denominado De Architectura Libri
Decem que continha um conteúdo teórico rico em informações
relativas aos métodos e estratégias construtivas. Traçava
toda uma linha doutrinal que, segundo o seu pensamento, auto regeria a
ação do arquiteto e o evolver da arquitetura. "É
preciso que ele tenha facilidade de redação, hábito
de desenho e conhecimento de geometria; deve Ter algumas tinturas de ótica,
conhecer a fundo a aritmética, ser versado em história,
dar-se com atenção ao estudo da música, não
ser alheio à medicina e à jurisprudência, e estar
a par da ciência astronômica que nos inicia nos movimentos
celestes (...) A arquitetura tem por objetivo a ordenação,
disposição, a eurritmia, simetria, conveniência e
a distribuição".
Seguindo
a etimologia da palavra arquitetura, que se origina do vocábulo
grego architekton, leva-se a concluir que o ato criativo está condicionado
a produção das necessidades primordiais de permanência.
Platão via na obra de arquitetura não a representação
do objeto conceituado, mas o real objeto. Uma idéia abstrata sendo
atribuída de forma, gerando um objeto concreto, uma realização
imaginária. Platão coloca como exemplo um pintor e um arquiteto,
e os relaciona de forma a definir a obra de arte como nada mais é
que uma imagem, "um fantasma, desprovido de existência verdadeira".
No livro
Studies in Tectonic Culture , o autor define um importante conceito que
será utilizado como guia para as análises das manifestações
arquitetônicas, independente do momento histórico em que
elas se situam. Kenneth Frampton analisa o termo tectônico, como
algo inerente ao uso e à configuração de uma edificação
no que diz respeito aos materiais que são utilizados, a maneira
e disposição deles no conjunto da obra e ao modo como a
herança histórica assimila os diferentes materiais disponíveis.
Para ele, o potencial da arquitetura é estabelecer significados
autênticos naquilo que nós vemos, sentimos e experimentamos;
o tectonic é, definitivamente, fundamental para as conclusões
sobre como os materiais influenciam naquilo que sentimos. Esse conceito
pode também se desenvolver segundo agrupamentos; não apenas
de partes de edifícios, mas também de objetos. O livro foca
a arquitetura como um ofício do ato da construção:
arte de ajuntamentos. Arte que deve ser entendida como envolvendo técnica,
habilidade. Segundo os trabalhos de Auguste Perret, Loui Kahn, Mies van
der Rohe, Frank Lloyd Wright e Carlos Scarpa, ele aborda a questão
de como a forma construtiva e as características dos materiais
foram integrais para o desenvolvimento das expressões arquitetônicas.
O arquiteto ordena, manipula, utiliza aquilo que dá origem aos
espaços em que vivemos. Ainda no mesmo raciocínio, ele explora
os múltiplos conceitos de arte que, nesta perspectiva, pode ser
entendida como a construção ou fabricação
de um produto artesanal ou artístico. Portanto, dependendo das
aplicações das regras artesanais ou do grau de utilidade
do objeto, o caráter tectônico envolve um julgamento acima
da produção de arte. Dentro deste argumento, o tectonic
estabelece um retorno à materialidade do objeto, sendo compreendida
como uma sintaxe da construção, como uma aplicação
de uma série de formas de arte; arte que deve ser compreendida
como ofício, profissão (conceito que será discutido
mais adiante).
Tectonic
é a arte de construir edifícios. A idéia de tecnologia
também significa a produção segundo a aplicação
de conceitos determinados. A origem da palavra está calcada no
termo grega techne ou tikto, que significa produção. Esse
termo compreende simultaneamente o conjunto dos processos especiais relativos
a uma determinada arte ou indústria, ou a aplicação
dos conceitos científicos à produção em geral.
Concluindo, seria o conjunto de artes e técnicas sociais aplicadas
para fundamentar o trabalho social, a planificação e a engenharia,
como forma de controle.
"Herbert
Marcuse entendia a tecnologia como um processo social no qual as técnicas
próprias (o aparato técnico da industria, dos transportes,
das comunicações) não são senão um
fator parcial. A tecnologia, como modo de produção, como
a totalidade de instrumentos, aparelhos e idéias que caracterizam
a era da maquina, é então, ao mesmo tempo, um modo de organização,
perpetuação ou mudança das relações
sociais, uma manifestação dos padrões predominantes
de pensamento e comportamento, um instrumento de controle" .
Os utensílios,
vasos, espaços de moradia e encontro do homem primitivo com certeza
se formaram e desenvolveram segundo o caráter de aplicação,
porém sem se liberar por completo das noções subjetivas,
sentimentais, que amplificam a definição de arte.
Para o arquiteto
Alberto Perez-Gomes, a Tecnologia é mais do que máquinas
ou processos neutros: é o nosso mundo, a realidade histórica
que nós fabricamos . A tecnologia não pode ser liberada
do ponto de vista das artes tradicionais, metafísica e humanismo.
O empuxo por trás de suas realizações é realmente
a sede por transcendência, em alguns contextos entendido como a
luta sem fim pela liberação pessoal.