Neste artigo poderão ser encontradas algumas definições de conceitos do que possa se considerar arquitetura, sob ótica da produção
do espaço, da habitação, do microclima, relacionando técnicas construtivas com os ofícios e práticas de construção de abrigos. Estão presentes outras definições como a abordagem Vitruviana, etimologia da palavra arquitetura, definições do conceito tectônico, de tecnologia e de casa como uma extensão do corpo.
A arquitetura
primitiva pode ser compreendida primariamente como uma imposição da
necessidade da conservação da vida humana sob os efeitos
do clima, da nocividade do tempo meteorológico, abrigando o corpo num microambiente alterado. O instinto do homem primitivo o conduz a um recinto
fechado, onde ele acostuma-se a procurar não só para repousar, mas
também para escapar às intempéries. Esse local pode
ser definido como uma habitação primitiva. O ambiente interno de uma habitação primitiva
qualquer é, sem dúvida, um microclima especialmente preparado
pelo homem de modo a fornecer-lhe as condições mínimas de higiene,
repouso e segurança necessárias.
A habitação primitiva é
um microclima artificial. Oferece uma vantagem considerável, podendo
ser parcialmente modificada, regulada e amenizada quando ocorrem situações
de viciação ou fenômenos meteorológicos desfavoráveis imprevistos.
Ela pode ser também considerada um "acidente" geográfico,
uma descontinuidade do espaço natural intocado. Podemos definir
a arquitetura das construções primitivas como abrigo humano
desenvolvido sob a intuição e a resolução
de problemáticas espaciais influenciado pelo sítio onde
se insere. Podemos afirmar que, via de regra, não poderiam ser
adaptadas ou transportadas de uma região para outra de clima inverso
ou com condições naturais diferentes daquelas que geraram
as resultantes formais deste modelo de habitação, assim como foram geradas as especificidades da vegetação,
dos animais e dos próprios homens.
Uma vez construído
o abrigo elementar pelo homem primitivo, de acordo com as possibilidades
da sua época, ele começou a perceber que o ato inicial de abrigar-se
não era por si só suficiente. Ele começa, então,
a introduzir no seu abrigo ainda rudimentar; melhorias ou aperfeiçoamentos
que permitissem a ele um melhor rendimento frente seus objetivos. Suas técnicas
construtivas foram sempre produto da manipulação e aplicação
dos materiais de construção, geralmente adquiridos da região
geográfica onde ele se insere.
Podemos analisar
e definir esse processo de melhoria substanciada como uma ordenação das peças
ou dos lugares e objetos, programados segundo uma disposição,
orientação e interdependência coerentes com a sua
natureza e necessidade. Além dessas considerações
práticas, o que faz da arquitetura uma das mais intricada das artes
é a conciliação desses fatores com os conceitos estéticos, questões que não serão abordadas aqui neste momento.
O arquiteto primitivo é, antes de tudo, um artista, no sentido de um criador de formas condicionadas, cujo ofício implica na resolução de aspectos práticos das mais diversas ordens.
O arquiteto
italiano Vitruvio desenvolveu um estudo denominado De Architectura Libri
Decem que continha um conteúdo teórico rico em informações
relativas aos métodos e estratégias construtivas. Traçava
toda uma linha doutrinal que, segundo o seu pensamento, auto regeria a
ação do arquiteto e o evolver da arquitetura. "É
preciso que ele tenha facilidade de redação, hábito
de desenho e conhecimento de geometria; deve Ter algumas tinturas de ótica,
conhecer a fundo a aritmética, ser versado em história,
dar-se com atenção ao estudo da música, não
ser alheio à medicina e à jurisprudência, e estar
a par da ciência astronômica que nos inicia nos movimentos
celestes (...) A arquitetura tem por objetivo a ordenação,
disposição, a eurritmia, simetria, conveniência e
a distribuição".
A etimologia da palavra arquitetura origina-se do vocábulo
grego architekton, remontando ao entendimento de que o ato criativo está condicionado
a produção das necessidades primordiais de permanência.
Platão via na obra de arquitetura não a representação
do objeto conceituado, mas o real objeto. Uma idéia abstrata sendo
atribuída de forma, gerando um objeto concreto, uma realização
imaginária. Platão coloca como exemplo um pintor e um arquiteto,
e os relaciona de forma a definir a obra de arte como nada mais é
que uma imagem, "um fantasma, desprovido de existência verdadeira". Trata-se de uma consideração definitivamente específica de um momento histórico bastante remoto, extremamente limitada, mas que caracteriza uma visão particular deste momento histórico de definições rudimentares.
No livro
Studies in Tectonic Culture , Kenneth Framptom nos apresenta um importante conceito que
poderá utilizado como guia para as análises das manifestações
arquitetônicas, independente do momento histórico em que
elas se situam. Frampton analisa o termo tectônico, como
algo inerente ao uso e à configuração de uma edificação
no que diz respeito aos materiais que são utilizados, a maneira
e disposição deles no conjunto da obra e ao modo como a
herança histórica assimila os diferentes materiais disponíveis.
Para ele, o potencial da arquitetura é estabelecer significados
autênticos naquilo que nós vemos, sentimos e experimentamos;
tectônico é, definitivamente, fundamental para as conclusões
sobre como os materiais influenciam naquilo que sentimos. Esse conceito
pode também se desenvolver segundo agrupamentos, não apenas
de partes de edifícios, mas também de objetos. O livro foca
a arquitetura como um ofício do ato da construção:
arte de ajuntamentos. Arte que deve ser entendida como envolvendo técnica,
habilidade. Segundo os trabalhos de Auguste Perret, Loui Kahn, Mies van
der Rohe, Frank Lloyd Wright e Carlos Scarpa, ele aborda a questão
de como a forma construtiva e as características dos materiais
foram integrais para o desenvolvimento das expressões arquitetônicas.
O arquiteto ordena, manipula, utiliza aquilo que dá origem aos
espaços em que vivemos. Seguindo este raciocínio, ele explora
múltiplos conceitos de arte, enquanto ofício, que nesta perspectiva pode ser
entendida como a construção ou fabricação
de um produto artesanal ou artístico. Dependendo das
aplicações das regras artesanais ou do grau de utilidade
do objeto, o caráter tectônico envolve um julgamento acima
da produção de arte. Seguindo este argumento, o conceito tectônico
estabelece um retorno à materialidade dos objetos, sendo compreendido
como uma sintaxe da construção, como a aplicação
de uma série de formas de arte, novamente lembrando que arte sendo compreendida
como ofício, profissão (conceito que será discutido
mais adiante).
"Tectonic", segundo Framptom,
é a "arte de construir edifícios". A tecnologia, continua ele,
também significa "produção segundo a aplicação
de conceitos pré-determinados". O autor associa o
termo à definição grega de tekton, produção, que também pode se relacionar com téctina, compreendendo simultaneamente o conjunto dos processos especiais relativos
a uma determinada arte ou indústria, ou a aplicação
dos conceitos científicos à produção em geral.
Seria o conjunto de artes e técnicas sociais aplicadas
para fundamentar o trabalho social, a planificação e a engenharia,
como forma de controle.
O autor comenta que Herbert
Marcuse entendia a tecnologia como um processo social no qual as técnicas
próprias (o aparato técnico da industria, dos transportes,
das comunicações) não são senão um
fator parcial. A tecnologia, como modo de produção, como
a totalidade de instrumentos, aparelhos e idéias que caracterizam
a era da maquina, é então, ao mesmo tempo, um modo de organização,
perpetuação ou mudança das relações
sociais, uma manifestação dos padrões predominantes
de pensamento e comportamento, um instrumento de controle.
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Os utensílios,
vasos, espaços de moradia e encontro do homem primitivo com certeza
se formaram e desenvolveram segundo o caráter de aplicação,
porém sem se liberar por completo das noções subjetivas,
sentimentais, que amplificam a definição de arte, já numa definição mais ampliada.
Para o arquiteto
Alberto Perez-Gomes, tecnologia impica em muito mais do que máquinas
ou processos neutros: é o nosso mundo, a realidade histórica
que nós fabricamos . A tecnologia não pode ser liberada
do ponto de vista das artes tradicionais, metafísica e humanismo.
O empuxo por trás de suas realizações é realmente
a sede por transcendência, em alguns contextos entendido como a
luta sem fim pela liberação pessoal.
Sob a perspectiva
da sociologia, a tecnologia também pode ser definida a partir de:
aplicação da lógica, razão e conhecimento
aos problemas de matérias primas do meio-ambiente. Técnicas
sociais empregam o mesmo pensamento dirigindo-se aos problemas de organização
humana. Tecnologia envolve a criação de instrumentos materiais
(máquinas) utilizadas na interação do homem com a
natureza assim como instrumentos sociais (burocracia) utilizadas na organização
humana. Ou ainda, objeto ou seqüência de operações
criadas pelo homem como assistência para se alcançar um objetivo.
O corpo do conhecimento humano que pode ser passado de um lugar para outro
ou de uma geração para outra. O corpo de conhecimento e
o estudo sistemático de métodos, técnicas e ferramentas
aplicadas na adaptação do meio-ambiente físico às
necessidades e desejos do homem. A aplicação do conhecimento
cientifico para construir e melhorar a infra-estrutura da agricultura,
indústria e vida diária. O conhecimento sistemático
e os métodos e procedimentos os quais podem ser utilizados numa
área especifica de maneira a resolver problemas práticos.
A aplicação da ciência às necessidades da humanidade
Quando introduzimos
tais argumentos no âmbito da produção do espaço, respeitando os limites considerados até o momento, podemos definí-lo
como algo que foi arrumado, limpo, dotado de barreiras, estas entendidas não como elementos que nos limitam, mas aquilo para
qual alguma coisa inicia a sua presença e define uma microlugar. Um espaço, para uma perspectiva arquitetural inicial, é o lugar onde alguma coisa foi ajeitada segundo
a interferência do homem, um espaço deixado entre limites
perceptivos determinados. Heidegger percebe na análise da arquitetura possibilidades de não apenas expressar
os diferentes valores tectônicos dos materiais a partir dos quais ela é produzida, mas
também de revelar as diferentes instâncias e modos de organização para o qual
o homem se constrói diante do mundo que se forma à sua volta.
Neste sentido, a casa, habitação
do homem primitivo não pode ser tratada apenas como fruto de uma necessidade imposta pela pressão
de uma natureza hostil ou de uma adaptação não biológica,
mas da ânsia ou da urgência de limitar um espaço próprio, de se definir enquanto ser vivo diante da natureza,
apropriar-se do contexto, quer de caráter permanente, quer como posse
acidental para fins concretos, quer como construção de sua identidade. Não se trata, portanto, de uma construção visando proteção estritamente
biológica, mas uma afirmação frente à natureza, uma relação mais ampliada do homem com o meioambiente.
A habitação primitiva pode ser pensada como
uma segunda pele. Ela desempenha
um papel de intercâmbio do homem com a natureza segundo múltiplas instâncias. Ela estabelece condições
de sensibilidade, de relação com o outro assim como nosso órgão epitelial.
O que primeiro chama a atenção na morada humana primitiva
é a sua extraordinária adaptação ao meio em
que se constrói. Ela está diretamente condicionada à
sua localização e à sua orientação frente às
condições climáticas e à especificidade dos materiais disponíveis: a madeira no meio florestal, a
pedra nas montanhas, o adobe nas planícies aluviais além
das peles de animais e fibras vegetais.
Quando analisamos
as construções com finalidades religiosas, encontramos um grande
número de exemplares em praticamente todas as civilizações
e culturas. O conceito de "sagrado" extrapola os limites da proteção humana. Os templos
são lugares de interface do mundo terreno com um "espaço
superior". A idéia de um espaço sagrado é anterior
à idéia de um templo religioso propriamente dito, onde atua
a presença de uma divindade verdadeiramente transcendente. É
um lugar de forte relação introspectiva, ritualística,
de oração e culto.
As primeiras
construções de maior importância que se conhecem são
os monumentos funerários, datados do período Mesolítico.
As tumbas e os enterramentos com sinais de ritual remontam ao período
Paleolítico Médio. Assim como os monumentos, são elementos
sem função utilitária prática. A sua forma
está desligada de qualquer função concreta. A inumação
do cadáver na terra é o ritual funerário mais utilizado pelos povos primitivos.
Desse tipo de estruturação se desenvolvem a maioria dos
exemplares dos túmulos encontrados. Etimologicamente,
o termo túmulo remete ao conceito de lembrança. Segundo
Lewis Munford, "o respeito do homem antigo pelos mortos (...)
teve um papel maior ainda que as necessidades de ordem mais prática,
ao fazer que procurasse um local fixo, um ponto fixo. Os mortos foram
os primeiros a ter uma morada permanente: uma caverna, uma cova assinalada
por um monte de pedras, um túmulo coletivo. Constituíam
marcos aos quais provavelmente retornavam os vivos a intervalos, a fim
de comungar com os espíritos ancestrais".
Há
ainda, outra parte do ambiente que o homem primitivo não
somente utilizava como ambiente de vida temporária, mas onde periodicamente regressava: as cavernas. Por
todo o mundo, há provas de ocupação e visitação
aborígene às cavernas. Nas camadas das grutas calcárias
de Dordogne, na França, por exemplo, é possível retraçar
sucessivas ocupações pelo homem pré-histórico.
Mais importante que sua utilização para finalidades domésticas
foi o papel que a caverna desempenhou na arte e nos rituais. Embora algumas
delas não tenham sido habitadas, como as de Lascaux e Altamira,
parecem ter sido centros cerimoniais de alguma espécie. Os antigos
santuários do Paleolítico são locais onde primeiramente
se desenvolveram indícios da vida cívica: locais de regresso
devido à fome ou fonte de água ou alimento, ou algum tipo
de escambo. Alguns outros tipo de lugares também personificavam
propriedades e poderes sagrados que atraiam os homens: grandes pedras,
bosques sagrados, árvores monumentais, fontes santificadas. Eram
marcos fixos que ajuntavam aqueles que de alguma maneira compartilhavam
as mesmas práticas. Nota-se, então, que a fixação
do homem a um determinado local associa-se também a motivos sagrados e não
simplesmente à sobrevivência.
Considerações importantes acerca da fixação do homem no período Neolítico trata das inovações
ocorridas na produção dos recipientes: utensílios de pedra e de
cerâmica, os vasos, jarros, tinas, potes, depósitos, etc.
Sem recipientes vedados (como os jarros de pedra ou argila), o aldeão
neolítico não tinha como guardar seus alimentos, protegê-lo
de roedores e insetos. E sem casa permanente de morada, os filhos, os
doentes e os velhos não poderiam ser mantidos juntos e em segurança.
Foi com a ajuda dos recipientes permanentes que a invenção neolítica
possibilitou uma relação mais firme do homem primitivo com uma região geográfica específica.
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